Saiba como foram os eventos de Dia dos Dados Abertos realizados no Brasil com apoio da OKBR
Estudantes de ensino médio discutindo sobre transparência pública e uso de dados públicos, enquanto mulheres aprendem em uma oficina prática sobre web scraping com Python. Enquanto alguns pesquisadores se debruçam sobre dados abertos para o monitoramento climático, a comunidade acadêmica de História debate a relevância de democratizar dados sobre pessoas negras em plataformas digitais como os projetos Wikimedia.
Pode parecer difícil olhar para essa diversidade de público, tema, atividade e nível de conhecimento e entender que tudo isso faz parte de uma única celebração: o Dia dos Dados Abertos no Brasil – ou Open Data Day, em inglês (ODD). Mas, para quem conhece essa iniciativa, sabe que não há nada de contraditório nisso.
O ODD é uma celebração democrática justamente porque atinge diferentes comunidades, em diferentes partes do mundo e com diferentes trajetórias e conhecimentos. Ele pode ser celebrado em pequenos ou grandes eventos, informais ou formais, online ou presencialmente – portanto, é adaptável e inclusivo. Mas o que une todos e todas e faz com que essa mobilização seja efetiva é o interesse e a vontade de saber mais e potencializar o uso e a abertura de dados governamentais.
Este é o quarto ano consecutivo que a Open Knowledge Brasil (OKBR) seleciona eventos em celebração ao ODD para apoiar financeiramente. Tivemos atividades voltadas para estudantes do ensino médio e outras que reuniram pesquisadores; algumas com pessoas que nunca trabalharam com dados abertos, e outras com participantes com conhecimento técnico. Teve evento com quatro pessoas, enquanto outros passaram de 100 participantes. Ao total, 417 pessoas compareceram aos oito eventos apoiados.
A seguir, confira mais sobre os eventos de 2026 que tiveram apoio da OKBR e patrocínio do AppCívico, da Linked Data, do JusBrasil e da ASK-AR.

Workshop “Crowdsourcing e as práticas de História Pública Negra nos projetos Wikimedia”, em Feira de Santana (Crédito: Laboratório História Editorial)
Clique nas cidades abaixo para ler sobre cada um dos eventos:
• Cuiabá (MT)
Quando: 7 de março de 2026
Onde: Bloco Didático da Faculdade de Engenharias da UFMT
Organizador: Meninas Tecnológicas UFMT
O “Open Data Day Cuiabá 2026 – Dados Abertos Aplicados à Geografia, Estatística e Computação” reuniu 18 participantes na Universidade Federal do Mato Grosso para aprender mais sobre o uso de dados abertos e questões sociais.
O ponto alto do evento foi a apresentação e utilização de ferramentas para coleta, análise e visualização de dados, que ajudaram a tornar as discussões mais práticas e aplicadas, e permitiu que os participantes entendessem melhor como trabalhar com dados abertos em diferentes contextos acadêmicos e profissionais.
“Para mim, um dos principais destaques foi a interdisciplinaridade entre Computação, Geografia e Ciências Políticas, além da apresentação de ferramentas práticas para trabalhar com dados abertos, que geraram bastante interesse entre os participantes”, explica Letícia Nascimento, estudante do 6º semestre de Engenharia de Computação e uma das organizadoras do evento.
Outro aspecto positivo foi o engajamento das pessoas participantes, que contribuíram com perguntas, reflexões e trocas de experiências ao longo das atividades.
• Porto Alegre (RS)
Quando: 7 de março de 2026
Onde: Biblioteca do Goethe-Institut Porto Alegre
Organizador: Wikimedia Brasil

Crédito: Lenny Maidana
Apesar de ter um número pequeno de participantes, o encontro em Porto Alegre foi produtivo. Das quatro pessoas presentes, três eram wikipedistas experientes. Mas mesmo elas não tinham experiência com edição de dados no Wikidata, especialmente edição massiva usando ferramentas como o QuickStatements e o OpenRefine. Assim, uma boa parte do encontro foi utilizada para explicar como as edições massivas funcionavam.
As pessoas participantes foram divididas em dois grupos: uma dupla ficou responsável pela reconciliação da P6468 (ISA id) – que se encontrava desatualizada – no Wikidata com o estado atual no Quadro dos Povos Indígenas. A outra ficou responsável por buscar os dados do Censo 2022 ou do Ministério da Saúde sobre populações indígenas.
Depois de cerca de três horas de atividade, foi possível reconciliar a propriedade de mais de 30 itens no Wikidata e obter o dado da população de todos os povos indígenas. Não foi possível fazer o download dos dados separados por povo, apenas por terra indígena. A dificuldade de entender o portal dos dados do Censo, assim como a dificuldade de obtê-los de forma satisfatória, foi um tema de debate durante o encontro – que também serviu para fortalecer e formar a comunidade wiki local.
“Não sou muito letrada no universo do Wikidata, apesar de entender do seu funcionamento e das suas ferramentas de edições básicas. A atividade foi de grande proveito para mim, por descobrir novas possibilidades e atalhos, além de entender um pouco mais da importância do acesso a esses dados”, disse Laura, uma das participantes.
• São Paulo (SP)
Quando: 7 de março de 2026
Onde: FIAP
Organizador: PyLadies São Paulo
O dia começou com a palestra da professora Brenda Xavier sobre web scraping, que fez uma introdução teórica sobre o tema, trazendo uma visão geral do que é possível fazer com a ferramenta.
Essa teoria foi necessária para a atividade mão na massa que veio depois: o workshop “WebScraping com Python para análise de dados públicos”. Ministrada por Carol Cortez, a oficina permitiu a troca de conhecimento entre as participantes sobre como encontrar, tratar e fazer bom uso de dados abertos em sites públicos, utilizando a raspagem estratégica de dados no Diário Oficial da União. Elas coletaram, estruturaram, armazenaram e analisaram dados utilizando bibliotecas da linguagem Python, como Selenium e Pandas. Todas as participantes conseguiram executar os passos do workshop com sucesso.
“É extremamente energizante estar ao lado de mulheres maravilhosas que buscam fortalecer outras mulheres por meio da tecnologia, seja compartilhando conhecimento, seja promovendo iniciativas que aumentam a inserção e a real participação feminina no mercado”, disse Carol Cortez.
As pessoas que não tinham habilidades em desenvolvimento estiveram no workshop “Python Básico”, que ocorreu concomitantemente. Cerca de 50 pessoas compareceram ao Open Data Day na FIAP.
“Participar do ODD foi incrível! Ouvir mulheres de diferentes contextos profissionais dentro da área de dados e com experiências de vida únicas foi muito inspirador! O workshop de web scraping era o combustível que me faltava para eu encerrar o dia cheia de vontade e de ideias sobre como fazer o estudo e a prática da análise de dados (em sentido amplo) virar parte da minha rotina”, disse a participante Patrícia Oliveira.

• Feira de Santana (BA)
Quando: 12 de março de 2026
Onde: Auditório do PPGH da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Organizador: Laboratório História Editorial
O workshop “Crowdsourcing e as práticas de História Pública Negra nos projetos Wikimedia” reuniu cerca de 50 participantes para discutir as potencialidades dos projetos Wikimedia para as práticas de História Pública e organizar uma frente antirracista no combate ao epistemicídio e ao racismo algorítmico em bancos de dados e IAs.

Crédito: Laboratório História Editorial
Após o debate inicial, que tratou dos projetos da Wikimedia, de como os trabalhos com a tecnologia podem abrir novos mercados de trabalho para os historiadores e destacou a importância de práticas colaborativas em projetos digitais e analógicos, foram feitas oficinas práticas de edição de projetos Wikimedia. Foram criados e/ou editados todos os itens da lista de tarefas proposta para o evento.
“Foi uma iniciativa muito interessante no contexto de aprofundamento da curricularização e da extensão de nossa universidade, e na possibilidade de pensar em outras experiências e como disputar as narrativas a respeito de personalidades negras na Wikimedia, na Wikipédia”, disse Carlos Francisco da Silva Júnior, docente da graduação em História da UEFS e coordenador do Grupo Rodney de Estudos em História da África, do Tráfico e da Escravidão Atlântica.
“O evento foi uma oportunidade importantíssima de inserir a comunidade acadêmica de historiadores e estudantes de História nos debates sobre a relevância de democratizar dados sobre pessoas negras em plataformas digitais como os projetos Wikimedia, visando combater o epistemicídio e o racismo algorítmico na internet e em espaços digitais. Com isso, também abrimos uma frente de discussão sobre os diferentes espaços em que os profissionais de História podem atuar, para além da universidade, a partir das práticas de História Pública Negra”, explicou Geferson Santana, coordenador do Laboratório História Editorial e facilitador do evento.
As atividades de contribuição nos projetos Wikimedia foram estendidas até 16/03, o que permitiu ainda mais edições.

Crédito: Laboratório História Editorial
• Salvador (BA)
Quando: 12 de março de 2026
Onde: Auditório do Pavilhão de Aulas da Federação I Reitor Felipe Serpa (PAF I) da UFBA
Organizador: Hub Patrimônio Digital

A atividade discutiu o papel da gestão da informação no contexto dos dados governamentais abertos, considerando seus impactos na transparência, participação social e organização informacional. Foram debatidos, entre outros assuntos, a relação entre dados abertos e governança pública, destacando a Lei de Acesso à Informação como marco importante no Brasil; e a importância da abertura de dados para assegurar a proteção, a divulgação e a sustentabilidade de patrimônios digitais e do conhecimento livre.
Dentre as mais de 120 pessoas participantes, tanto presentes na UFBA quanto acompanhando ao vivo, estavam profissionais e pesquisadoras de diferentes campos de atuação, como história, arquivologia, tecnologia da informação e jornalismo. Elas compartilharam suas experiências e iniciativas em desenvolvimento ou já implementadas que promovem a abertura de dados no campo da história e memória, e discutiram os desafios e dimensões éticas da abertura de dados frente ao crescente desenvolvimento de modelos de inteligência artificial.
“Concluiu-se que a simples disponibilização de dados não garante transparência efetiva, sendo necessária uma gestão da informação estruturada, capaz de integrar aspectos técnicos, organizacionais e sociais. Dessa forma, a gestão da informação se consolida como elemento fundamental para que os dados abertos cumpram seu papel na democratização da informação”, resumiu Ellen Pederçane, membro do Hub Patrimônio Digital e uma das organizadoras do evento.
“Em uma sociedade cada vez mais digitalizada, a abertura e acesso de dados é elemento crucial para assegurar o direito à memória, fundamental na promoção da justiça, nas lutas por equidade social e no combate às desigualdades. E as experiências compartilhadas durante o evento apontam direções e soluções para a promoção de dados abertos como instrumento de promoção do direito à memória e de defesa dos bens públicos digitais”, acrescentou Diana Santos Souza, membro do Hub Patrimônio Digital e também organizadora da atividade.
• Jacobina (BA)
Quando: 13 de março de 2026
Onde: iCAT Hackerspace
Organizador: Instituto Antonio Ribeiro Brito de Cultura, Arte e Tecnologia (iCAT)
O Open Data Day 2026 em Jacobina foi um momento potente de troca entre sociedade civil, poder público e comunidade tecnológica, com 32 participantes. Os debates sobre transparência pública, uso de dados públicos e inteligência artificial foram o ponto alto do evento, com destaque para a participação ativa de jovens estudantes da rede pública do 3º ano do curso técnico em informática e educadores.
“Trazer estudantes do 3º ano do curso técnico em informática para o Open Data Day foi uma experiência muito rica. Eles puderam ver na prática como dados abertos e tecnologia se conectam com cidadania e mercado de trabalho, ampliando a visão além da sala de aula”, disse Luis Sacramento, professor do CETEP.
O evento gerou encaminhamentos para fortalecer iniciativas locais de dados abertos e inovação cidadã, como realizar um outro encontro mais técnico ainda este ano para trabalhar com dados abertos ou projetos como o Querido Diário.
“O evento mostrou que há um grande interesse local em dados abertos e tecnologia como ferramentas de transformação social – tema antes restrito dentro do ambiente acadêmico, e que agora está aberto e próximo da comunidade através do iCAT Hackerspace”, concluiu Valessio Brito, membro do iCAT e organizador do evento.

• Águas Lindas de Goiás (GO)
Quando: 13 de março de 2026
Onde: Câmara Municipal de Águas Lindas de Goiás
Organizador: Projeto Jovem Cidadão
A estratégia de fazer uma mobilização direta nas escolas para atrair estudantes para a atividade deu tão certo que foi preciso readaptar a programação, já que 120 jovens compareceram à Câmara Municipal de Águas Lindas de Goiás para o “Open Data Day 2026 – Transparência Legislativa e Dados Abertos”.
Assim, em vez de uma oficina prática, optou-se por um debate mais expositivo, garantindo que todos os presentes pudessem acompanhar o conteúdo de forma adequada. Esse formato possibilitou apresentar conceitos fundamentais de forma acessível, especialmente sobre transparência legislativa e acesso à informação.
Um dos pontos altos foi o engajamento dos participantes durante as falas e momentos de interação, com perguntas que demonstraram interesse em compreender melhor o funcionamento do poder público e as formas de acompanhamento da atuação legislativa.
Destacou-se também a capacidade de conexão entre o conteúdo apresentado e a realidade local, especialmente a partir das experiências anteriores de participação dos jovens em debates sobre políticas públicas. Como desdobramento, observou-se o interesse de estudantes em aprofundar o tema e acessar, posteriormente, as ferramentas e informações apresentadas.
“Foi muito bom ver como a gente pode ir além de só ouvir sobre política e entender o que está sendo feito. Me deu mais vontade de participar”, disse Ana Clara, estudante que participou do evento.
• Belém (PA)
Quando: 20 de março de 2026
Onde: Auditório do LIIS-LPO, Laboratório de Engenharia Elétrica (LEEC), na UFPA
Organizadores: Laboratórios LIIS (Laboratory of Intelligent Interactive Systems) e L’ANTRO (Laboratório de Antropização)

Crédito: Samilly Santos
Por conta de um desligamento repentino de energia para manutenção do prédio onde o evento ocorreu, a programação da manhã do ODD 2026 na UFPA foi realizada exclusivamente online. Ao total, o evento teve 22 pessoas participantes.
Na palestra de abertura, o mestrando Pedro Guimarães falou sobre a importância de dados abertos, da ciência aberta e do código aberto como ferramentas complementares para o acesso livre ao conhecimento.
Em seguida, os palestrantes Dr. José Fernandes, Dr. André Silva e Gabriela Pinheiro deram bastante ênfase no trabalho social realizado pelo L’ANTRO na região do município de Castanhal, no nordeste do Pará, mostrando como o papel do pesquisador na universidade pública deve ser o de atender as demandas sociais da população, especialmente quando os indicadores e dados providos pelo poder público são insuficientes, incentivando este tipo de pesquisa para o público presente.
Depois, Pedro Guimarães voltou para falar sobre onde encontrar dados abertos para o monitoramento climático e os impactos humanos na terra. Ele disse que é possível detectá-los com qualidade por sistemas de sensoriamento remoto, que quando disponibilizados de forma aberta, permitiram imenso avanço científico, essencial no contexto atual, especialmente na Amazônia.
Por fim, os palestrantes Dr. Roniel Marques, Me. Waldemiro Negreiros e Augusto Motta discutiram a produção de dados climáticos com aparelhos de baixo custo operados por código aberto, comparando com a dificuldade de aquisição de equipamentos de monitoramento de alto padrão – frequentemente sujeitos à necessidade de altos custos de importação e operação em sistemas proprietários e fechados. Isso demonstra a importância do incentivo às produções locais e livres para o cenário de emergência climática vivido.
“A colaboração entre profissionais e acadêmicos de diversas áreas do conhecimento, mesmo com pesquisas diversas, mas voltados para o mesmo tema de dados abertos, tornou a discussão do evento rica para o campo da interdisciplinaridade. Este tipo de proposta é muito necessária para o atual cenário das demandas complexas que a academia e as ciências possuem no nosso país”, disse Pedro Guimarães, organizador e palestrante.
“O evento foi muito bom! Adquiri muitos conhecimentos a respeito dos projetos apresentados e os palestrantes falaram muito bem. Além disso, o coffee break foi bem rico e servido”, relatou a participante Williane Pereira.
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