Advocacy e Pesquisa

Seminário reúne especialistas para construir uma estratégia de governo digital para o Brasil

28 abr de 2026, por OKBR

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Confira os debates, as contribuições, as atividades e os resultados dos dois de evento e entenda quais prioridades devem subsidiar a atualização da E-digital

 

Nos dias 9 e 10 de abril, o Comitê Interministerial para a Transformação Digital (CIT Digital) promoveu o Seminário “Futuro do Digital: Construindo uma estratégia para o Brasil” em Brasília (DF). Reunindo especialistas, gestores e gestoras, representantes do setor privado e da sociedade civil, o evento faz parte do processo de elaboração da Estratégia Brasileira para a Transformação Digital (E-Digital) e teve como objetivo refletir sobre tendências, desafios e oportunidades do setor, além de trazer contribuições, de forma colaborativa, para a definição de metas, princípios e prioridades estratégicas para as políticas públicas até 2031.

Crédito: Henrique Raynal

Ao longo dos dois dias de evento, as manhãs foram dedicadas a painéis temáticos com a participação de autoridades e especialistas, e as tardes destinadas a grupos de trabalho voltados à priorização de ações e à coleta de contribuições. O seminário ainda foi transmitido ao vivo pelo canal da Casa Civil no YouTube e se utilizou de ferramentas de interação remota em tempo real para garantir a participação do público que acompanhou as discussões remotamente, votando em prioridades e deixando comentários. 

Haydée Svab, diretora-executiva da Open Knowledge Brasil, esteve presente em Brasília para o evento e reconheceu a importância da existência de espaços de participação social como este evento. Porém, apontou que outros mecanismos, como a tomada de subsídios anterior, poderiam ser mais robustos e prever a possibilidade de contribuições coletivas, além de critérios prévios de sistematização, calendário de devolutivas e clareza sobre se e como as sugestões serão absorvidas. 

“Discutir uma estratégia digital do Brasil é fundamental neste momento em que estão na agenda pública a implementação do ECA Digital e do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), além de propostas como a regulação de plataformas e Redata. No seminário, foi possível perceber um desejo por soberania nacional e, quiçá, protagonismo geopolítico, ao mesmo tempo que ainda temos muitos desafios postos – como o de unificar uma visão sobre para onde queremos seguir e, principalmente, como coordenar ações de governos e também do governo com outros atores para que passemos de consumidores a produtores de tecnologia”, acrescentou. 

A seguir, Haydée destaca os pontos mais importantes que apareceram nos painéis. Confira.

 

Painel de abertura

Com André Picoli Agatte (Serpro), Renata Mielli (MCTI), Luana Roncaratti (MGI), João Brant (SECOM), Regis Dudena (Ministério da Fazenda) e Rogério da Veiga (Casa Civil)

O debate entre representantes de diversos órgãos governamentais destacou a busca estratégica do Brasil pelo fortalecimento do desenvolvimento tecnológico nacional e pela soberania digital, com diversas facetas exploradas, como dados, IA, infraestrutura e informação. As pessoas painelistas enfatizaram a necessidade do Brasil se tornar um produtor relevante de tecnologia, investindo em infraestrutura própria — como nuvens e inteligência artificial (IA) soberanas — e em marcos setoriais como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). 

Além de celebrar o sucesso da digitalização de serviços públicos via Gov.br, as autoridades reforçaram que a transformação digital deve ser pautada pela regulação ética, pela inclusão social e pela autonomia geopolítica, visando garantir que o progresso tecnológico impulsione o crescimento econômico sem aprofundar a dependência externa ou a dominação por grandes monopólios digitais. Porta-voz do presidente Lula, Rogério da Veiga reiterou a frase de Lula em Nova Délhi: “Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação.”

 

Painel 1 - A nova geopolítica digital: onde e como o Brasil se posiciona?

Com o embaixador Eugênio Garcia (MRE), Marco Cepik (UnB) e Jacqueline Lopes (ICC Brasil)

O debate destacou o posicionamento do Brasil frente a uma ordem mundial em crise, marcada pelos fenômenos da desglobalização, desdemocratização e desmultilateralização. Diante desse cenário de instabilidade e disputas geopolíticas, o embaixador Eugênio Garcia defendeu que o país deve agir no sentido oposto: defender as regras da OMC, a democracia, a integridade da informação e o multilateralismo, buscando autonomia e o direito de regular, sem escolher lados.

Os especialistas também defenderam que o país deve agir como um promotor/indutor de regras internacionais, diversificando parcerias tecnológicas. A discussão enfatizou que a transformação digital é um processo indissociável das relações de poder, exigindo integração regional e políticas que incentivem a inovação em setores como IA e 5G/6G. Por fim, ressaltou-se a importância de consolidar o Brasil como referência em inclusão digital, utilizando ativos como o Pix e o Gov.br para articular o desenvolvimento nacional às cadeias globais de valor.

 

Painel 2 - Soberania digital: para quê e para quem?

Com Helena Martins (DiraCom), Sérgio Amadeu (UFABC), Giuliano Mendonça (Embraer) e Laura Schertel Mendes (IDP)

Nesta mesa, debateu-se sobre o quanto a soberania digital pode (ou deve) ser vista como um exercício de autodeterminação e vontade política, abrangendo as dimensões econômica, cultural e tecnológica para além da simples localização de dados. “A soberania tecnológica não é apenas replicar sistemas estrangeiros ou localizar dados, mas sim decidir que tipo de tecnologia e como ela será desenvolvida”, disse Helena Martins, do Direito à Comunicação e Democracia (DiraCom).

No conjunto, as pessoas painelistas defenderam a ruptura com o “extrativismo de dados” das grandes plataformas. Sérgio Amadeu alertou que o Brasil é um grande produtor de dados – mas envia essas informações para as Big Techs – e propôs a construção urgente de infraestruturas públicas federadas de data centers de baixo impacto ambiental para universidades e o uso do poder de compra do Estado para induzir o desenvolvimento de tecnologias nacionais. Ele defendeu, ainda, repensar premissas – por exemplo, a hegemonia dos grandes modelos de linguagem (LLM) frente às possibilidades dos modelos de linguagem pequenos (SLM).

Os especialistas também ressaltaram a necessidade de uma arquitetura regulatória eficaz que proteja direitos e reduza desigualdades.

Laura Schertel Mendes, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), sugeriu a criação de um Plano Nacional Digital de longo prazo, a exemplo do Plano Nacional de Educação (PNE). 

O consenso foi de que o Brasil precisa orquestrar suas capacidades, a exemplo do sucesso global da Embraer, para desenvolver tecnologias que reflitam a identidade brasileira e promovam a inclusão das populações mais vulneráveis.

 

Painel de Resultados Preliminares da Tomada de Subsídios

Além de apresentados os resultados das enquetes aplicadas durante os painéis do dia anterior, foi exibida uma análise preliminar das contribuições da consulta pública para a E-Digital, organizada em tendências, desafios, diferenciais e visão transformacional.

1. Tendências:

  • Emergentes: Inteligência Artificial Generativa como vetor de transformação econômica, estatal e social; infraestrutura digital (nuvem, data centers, conectividade); governo digital orientado por dados e outros temas (GreenAI, bioeconomia digital, automação física).
  • Convergentes: Preocupação geopolítica e soberania digital (ênfase em infraestrutura pública digital); o Estado Digital como plataforma preditiva e integrada; expansão da conectividade e capacitação humana como pré-condições para a transformação digital e a redução de desigualdades.
  • Em debate: Atuais aplicações de IA entre a promoção de eficiência e desenvolvimento e a amplificação de desigualdades; como atingir a soberania digital (governança compartilhada, software livre, controle social da tecnologia); e estratégias de inovação e digitalização (modelos proprietários versus tecnologias abertas).

2. Desafios e incertezas:

  • Emergentes: Uso de tecnologias estrangeiras e instabilidades geopolíticas, cibersegurança, qualificação de mão de obra (especialmente com IA), confiança digital e infraestrutura crítica.
  • Convergentes: Dependência tecnológica externa (risco de aprisionamento tecnológico nas compras públicas); relevância da cibersegurança; confiança digital e resiliência de infraestruturas críticas no contexto de mais ataques, golpes e fraudes; necessidade de maior coordenação institucional; déficit de capacidades humanas, assimetrias socioeconômicas e regionais; limites de conectividade; impacto hídrico/energético/ambiental do digital.
  • Em debate: Regulação de novas tecnologias para acompanhar a celeridade da transformação digital com segurança jurídica; desigualdade digital (conectividade, replicação ou aprofundamento de desigualdades e violências já existentes); equilíbrio de esforços de proteção digital (infraestrutura/tecnologia x dados pessoais/segurança do usuário); falta de investimentos e infraestrutura versus questões de expertise, gestão e execução. 

3. Diferenciais (ativos do Brasil):

  • Emergentes: Patrimônio cultural e natural, recursos energéticos e minerais e ativos institucionais (infraestruturas públicas digitais, sistema financeiro inovador, regulação, saúde e governo digital).
  • Convergentes: Matriz energética renovável e recursos minerais e hídricos como ativos fundamentais para uma infraestrutura digital verde e de baixo carbono; sistema financeiro digitalizado (PIX como referência global); experiência em governo digital (Gov.br, SUS); escala populacional (diversidade demográfica, mercado interno, alta adoção às novas tecnologias); sistema de inovação (universidades, agências de fomento e startups); arcabouço legal e institucional robusto; vocações produtivas brasileiras (por exemplo, agronegócio e bioeconomia); tradição multilateral a favor da diplomacia digital e exportação de modelo de regulação e governança.
  • Em debate: Priorização de ativos mais estratégicos para uma agenda de transformação digital (físicos, naturais, socioculturais, institucionais); distinção entre ativos consolidados e potencialidades a desenvolver em médio-longo prazo; foco em capacidades estatais versus ecossistema privado.

4. Visão transformacional:

  • Emergentes: Tecnologias abertas e interoperáveis baseadas em dados integrados; infraestrutura soberana e desenvolvimento de segurança tecnológica em cadeia produtiva e pilha de software; adaptabilidade à agenda de sustentabilidade e de formação de profissionais especializados.
  • Convergentes: Construção de um Estado digital soberano, proativo e orientado por dados, com dados e serviços integrados e personalizados, capazes de antecipar desejos e demandas individuais; maior participação popular por meios digitais; soberania em IA e dados (nuvem soberana, LLMs em português, data centers nacionais, infraestrutura pública digital de qualidade); interoperabilidade de dados em sistemas públicos; educação e capacitação digital como fundamentos para qualquer transformação, incluindo letramento em IA.
  • Em debate: Harmonização com padrões internacionais versus participação em cadeias globais de valor; potencial do Brasil como fornecedor de GovTech para o Sul Global; estratégias de vanguarda (GreenIA, bioeconomia, software, semicondutores); abertura/interoperabilidade versus controle rígido de fluxo de dados; e a distância entre desenvolvimento econômico/produtivo e iniciativas de inclusão/cidadania.

 

Crédito: Henrique Raynal

 

Painel 3 - Transformação digital: quais capacidades o Brasil precisa construir?

Com Cristiane Rauen (MDIC), Glória Guimarães (Associação Brasil Digital 30+), Silvana Bahia (Olabi), Teresa Ludermir (UFPE) e Pedro Hartung (Instituto Alana)

As pessoas especialistas deste painel exploraram, cada uma com sua perspectiva, a ideia de que o país precisa atuar simultaneamente em três aspectos: formação do cidadão (letramento digital, pensamento crítico e autonomia), fortalecimento do Estado (capacidade de prover serviços digitais e induzir inovação) e desenvolvimento econômico-tecnológico (soberania e posicionamento estratégico) para estruturar a transformação digital. Nesse contexto, destacou-se o diagnóstico de fragmentação das iniciativas digitais no Brasil, sendo proposta uma estratégia integrada baseada em infraestrutura (conectividade e data centers), tecnologias prioritárias (como IA aplicada à indústria), investimento em P&D, educação digital e melhoria do ambiente regulatório.

Um ponto central deste debate foi a mudança de paradigma: sair do foco exclusivo no acesso para avançar em direção à autoria e autonomia tecnológica, reconhecendo inclusive saberes periféricos e não-tradicionais.

A desigualdade estrutural (racial, de gênero e territorial) foi tratada como elemento constitutivo e indesejável da transformação digital.

Também houve forte ênfase na capacitação como principal gargalo, tanto em níveis básicos quanto avançados, e na necessidade de transformar investimentos em capacidade real instalada. Por fim, o Estado apareceu como ator-chave, seja coordenando investimentos, seja como indutor via compras públicas e políticas de dados. 

 

Painel 4 - Visão digital: que futuro digital o Brasil escolhe?

Com Beatriz Vasconcellos (Casa Civil), Frederico Andrade (Indigo Hive), Luca Belli (FGV Direito Rio) e Graciela Selaimen (Instituto Toriba)

Em sua fala, Frederico Andrade, fundador e CEO da Indigo Hive, trouxe a ideia de um “governo agêntico”, capaz de antecipar demandas e oferecer serviços personalizados via IA, potencialmente superando o setor privado em eficiência e confiança pública. A diversidade brasileira foi colocada ainda como uma vantagem competitiva para essa personalização em escala. 

Ao mesmo tempo, os debatedores reforçaram a necessidade de uma soberania pragmática, baseada em uma transição gradual para o domínio da infraestrutura e do know-how, evitando dependência externa e evasão de talentos.

Também se levantou uma crítica contundente a abordagens meramente aspiracionais: defendeu-se a construção concreta de infraestrutura pública digital (em software, hardware, energia, conectividade e minerais críticos), inspirada em casos como o da Índia.

O Brasil foi diagnosticado como tecnologicamente dependente, com captura de valor por parte de empresas estrangeiras. Nesse sentido, educação (inclusive para gestores públicos), regulação eficaz e capacidade de implementação são pilares fundamentais para a alteração desse cenário. 

Por fim, Graciela Selaimen, fundadora e diretora executiva do Instituto Toriba, ampliou a discussão para o plano simbólico e epistemológico: o futuro digital entendido como um campo de disputa, exigindo múltiplas visões, espaços de experimentação e capacidade crítica frente a narrativas dominantes. Ela também trouxe a noção de “soberania epistemológica”, ou seja, a capacidade de definir categorias fundamentais, como o que é humano em um contexto de crescente hibridização com máquinas. Graciela ainda lembrou que elementos como cultura, arte e diplomacia brasileiras deveriam ser reposicionados na construção de um imaginário digital próprio, e reforçou a necessidade de maior eficiência no uso de recursos públicos e de postura proativa frente às transformações tecnológicas.

 

Crédito: Henrique Raynal