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Relatório inédito mostra como famílias chefiadas por mulheres sofrem mais com a crise climática e apresenta o conceito de “conta climática”

18 nov de 2025, por OKBR

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Coordenada pela Hivos, com participação da OKBR e outras organizações, a pesquisa foi lançada durante a COP30 em Belém; saiba mais

 

Em todo o Sul Global, milhões de mulheres estão silenciosamente a pagar a “conta climática oculta” — os custos não registrados e não reconhecidos das alterações climáticas que não recaem sobre governos ou empresas, mas sobre as famílias. 

Reconstruir casas após inundações ou deslizamentos de terra, cuidar de crianças ou idosos durante ondas de calor, caminhar mais para buscar água, pedir dinheiro emprestado para substituir colheitas perdidas ou lidar com a ansiedade de não saber quando o próximo desastre ocorrerá… essas são as contas climáticas, que assumem muitas formas.

O novo relatório “Ela paga a conta do clima: Como as famílias chefiadas por mulheres arcam com os custos ocultos da crise” olha justamente para como as alterações climáticas não são apenas uma emergência planetária, mas também uma injustiça econômica e de gênero — afetando especialmente mulheres e famílias de baixa renda.

Lançado hoje (18/11), em um evento paralelo da COP30 no Arayara Amazon Climate Hub em Belém (PA), o estudo teve duas partes e se baseou em entrevistas feitas no Brasil e na Zâmbia. Entre maio e julho de 2025, o WRI Brasil conduziu um estudo exploratório e uma revisão bibliográfica cobrindo o período de 2022 a 2025, destacando as dimensões de gênero da vulnerabilidade climática. 

Representações das diferentes organizações participantes do relatório “Ela paga a conta do clima: Como as famílias chefiadas por mulheres arcam com os custos ocultos da crise” durante o lançamento da pesquisa, em Belém (PA). (Crédito: OKBR/Yuri Vasquez)

Com base nisso, de julho a agosto de 2025, por meio do programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC) da Hivos, a Open Knowledge Brasil e pesquisadores da Universidade da Zâmbia entrevistaram 236 famílias para entender como as mudanças climáticas estão remodelando a vida cotidiana — prejudicando a segurança alimentar, sobrecarregando os sistemas de saúde, aumentando os custos com energia e ameaçando os meios de subsistência. 

As conclusões são contundentes, mas ecoam o que os movimentos do Sul Global já sabem há muito tempo: as mulheres não são vítimas passivas da crise climática. Elas são as primeiras a responder — e, muitas vezes, as últimas a se beneficiar.

No Brasil, mulheres negras e de baixa renda em bairros propensos a inundações enfrentam exposição desproporcional ao calor, inundações e falhas na infraestrutura. Na Zâmbia, mulheres agricultoras rurais sem direitos garantidos à terra passam por ciclos repetidos de seca e perda de colheitas. A crise climática não cria desigualdade, mas a expõe e multiplica, revelando como a injustiça estrutural, o gênero e a pobreza se cruzam para moldar a vulnerabilidade.

 

Contas climáticas

O documento apresenta ainda o conceito de “contas climáticas” (ou “climate bills”, em inglês) — uma estrutura para tornar visíveis, quantificar e, por fim, realocar os custos ocultos da inação climática das famílias para os principais responsáveis. 

O evento de lançamento aconteceu no Arayara Amazon Climate Hub e contou com a presença da ministra do Ministério das Mulheres, Márcia Lopes (Crédito: OKBR/Yuri Vasquez)

A abordagem das “contas climáticas” busca responder diretamente a essa injustiça, reequilibrando quem paga e quem se beneficia das ações climáticas, já que elas:

  • identificam e quantificam os custos externalizados das mudanças climáticas que recaem desproporcionalmente sobre famílias de baixa renda e grupos marginalizados;
  • realinham a responsabilidade fiscal por esses custos para os governos nacionais, indústrias de alta emissão e bancos multilaterais de desenvolvimento — em linha com o princípio de responsabilidades comuns, mas diferenciadas;
  • operacionalizam mecanismos equitativos de financiamento climático que são transparentes, sensíveis às questões de gênero e adaptáveis a múltiplas dimensões da desigualdade — não se limitando ao gênero — ao mesmo tempo em que estão incorporados nos sistemas orçamentários e de gestão das finanças públicas (PFM) existentes.

Ao integrar esses custos aos sistemas públicos de planejamento e orçamento, as “contas climáticas” podem ajudar a elaborar políticas fiscais mais equitativas, alinhar os orçamentos nacionais com a justiça climática e as metas de transição justa e garantir que o financiamento climático chegue aos mais afetados. 

Assim, o relatório amplifica as vozes por trás das experiências das famílias entrevistadas e convoca os delegados da 30ª Conferência das Partes (COP30) a enfrentar essa injustiça climática de frente.

“Este estudo indica os efeitos concretos das mudanças climáticas nas vidas das famílias, incluindo aumento de gastos domésticos, perdas materiais, sobrecarga do trabalho de cuidado, ciclo de endividamento, além de impactos na saúde mental. No relatório específico do Brasil, ainda a ser publicado, deixamos mais de 20 recomendações endereçadas a diversos atores, como governos, financiadores, setor privado e mídia, entre outros. Enfim, mais do que um diagnóstico, este trabalho é um instrumento de cobrança que revela como a falta de rastreabilidade do financiamento climático perpetua e aprofunda desigualdades, além de sobrecarregar financeiramente grupos já mais vulneráveis – as mulheres”, explica Haydée Svab, diretora-executiva da OKBR.