2025: Resistência, inovação e a força da atuação em rede

17 mar de 2026, por Haydée Svab

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Haydée Svab, diretora-executiva da OKBR, reflete sobre a atuação da organização ao longo de 2025 e quais temas devem estar no nosso radar neste ano

 

Ao olharmos para 2025, vemos um ano de contrastes e de reafirmação de propósitos. Foi um período em que a Open Knowledge Brasil (OKBR) precisou olhar para dentro, reorganizar suas estruturas e enfrentar um cenário global adverso para o financiamento da sociedade civil. Ao mesmo tempo, foi o ano em que nossa voz ecoou com mais força nos tribunais superiores, nos fóruns internacionais e na formulação de políticas públicas locais. 

Se 2024 foi o ano da articulação, em 2025 nossa atuação foi pautada pela convicção de que dados abertos têm papel fundamental quando falamos de justiça social, climática e econômica — ainda mais na era da IA generativa. Desde o enfrentamento à opacidade no Judiciário até nossa atuação na COP30, buscamos estar presentes onde vimos que a democracia exigia vigilância e inovação.

A seguir, apresento um balanço das nossas atividades, divididas em três eixos estratégicos que sustentaram nossa jornada nos doze meses de 2025.

 

Fortalecimento institucional, comunidade e inovação cidadã

Em 2025, demos um passo decisivo para a nossa identidade organizacional: a OKBR consolidou-se formalmente como um Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT). Com isso, ampliamos nossas possibilidades de financiamento e de atuação em pesquisa e desenvolvimento, além de reforçarmos o caráter técnico que sempre pautou nossos projetos. Acompanhando esse movimento, expandimos e renovamos nosso Conselho, trazendo novas perspectivas para a governança da organização.

Esse fortalecimento institucional foi fundamental para atravessarmos um cenário financeiro desafiador. O contexto geopolítico global impactou severamente o financiamento de causas sociais e do terceiro setor, o que exigiu de nós uma reestruturação organizacional interna e muita responsabilidade na gestão de recursos. Essa realidade nos impôs escolhas difíceis – como a redução da equipe –, mas necessárias para garantir a sustentabilidade e a continuidade da nossa missão a longo prazo.

Painel de abertura do Coda.Br 2025. Crédito: Nat Cesar/OKBR

Diante da escassez, buscamos as raízes dos movimentos de colaboração e realizamos importantes migrações de nossa infraestrutura tecnológica: reduzimos em 20% nossos custos e agora todos os cursos da Escola de Dados são abrigados no Moodle, um ambiente desenhado para o gerenciamento de ensino e aprendizado on-line – e open source! Foi um processo complexo que contou com o apoio essencial da Opará e a dedicação valiosa de pessoas voluntárias.

Aliás, o voluntariado foi um dos grandes destaques do ano. A nova Trilha de Voluntariado da OKBR evidenciou a potência de nossa comunidade. Tivemos 100 pessoas inscritas no processo, das quais 43 participaram da reunião de pontapé inicial e um grupo qualificado finalizou a jornada completa, entregando contribuições valiosas para a organização, como quatro webinars da Escola de Dados em novembro, além de um levantamento do estado da regulamentação da LAI e da LGPD nas capitais brasileiras.

Essa energia comunitária também manteve nossos projetos de inovação cidadã ativos. O Querido Diário (QD), mesmo num contexto de desfinanciamento, viveu um ano de reconhecimentos: foi finalista do prêmio WSA Brasil e recebeu menção honrosa no News Commons Challenge. O Diários do Clima, cujo motor de busca é o QD, também recebeu premiação: o Troféu Rastilho, que reconhece projetos da sociedade civil que liberam dados, monitoram o poder público ou ampliam o acesso à informação. Na busca de sustentabilidade para o QD, a campanha de financiamento coletivo no Catarse quase dobrou a arrecadação em relação ao ano anterior. E, embora o valor ainda seja insuficiente para cobrir todos os custos operacionais do projeto, o crescimento demonstra que nossa comunidade reconhece cada vez mais a importância de libertar os diários oficiais.

Em 2025, celebramos também mais uma edição do Open Data Day, na qual conseguimos viabilizar patrocínios e conceder minigrants (microbolsas) para apoiar sete eventos locais de dados abertos pelo país, fortalecendo o ecossistema brasileiro.

Na frente educacional, a Escola de Dados manteve sua excelência: organizou uma série de webinars que engajou a nossa rede com os temas mais atuais, e realizou no Insper a histórica 10ª edição do Coda.Br, o maior encontro de jornalismo de dados e tecnologia do país. Além disso, promoveu mais uma edição do Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados (PCWA) em parceria com Abraji, Transparência Brasil e Instituto Goethe.

Oficina durante o Open Data Day Maceió 2025

 

Defesa de direitos e incidência política em rede

A defesa intransigente do acesso à informação pública exigiu de nós uma postura combativa em 2025. Atuamos em múltiplas frentes para impedir retrocessos e garantir que a Lei de Acesso à Informação (LAI) e a transparência ativa fossem respeitadas.

Embora nem sempre visível a quem nos acompanha, um dos focos de nossa incidência técnica foi contra as barreiras nos Diários Oficiais. Acompanhamos com preocupação a implementação de “captchas” e outros bloqueios que impediam a leitura automatizada de documentos públicos, inviabilizando ferramentas como o Querido Diário. A partir de um diálogo profícuo com a Prefeitura de São Paulo e uma atuação conjunta com a organização Fiquem Sabendo, conseguimos reverter essa medida na capital paulista, restabelecendo o livre acesso e criando um precedente importante para outros municípios. Em alguns outros casos, quando o diálogo não foi proveitoso, seguimos para a judicialização. 

Ainda em termos de litigância estratégica, encerramos o ano solicitando ao Supremo Tribunal Federal (STF) o ingresso como amici curiae na ADI 7892. Nessa ação, construída ao lado da Transparência Brasil, Justa, Instituto República.org e Movimento Pessoas à Frente, defendemos a inconstitucionalidade da resolução que autoriza a exigência de identificação prévia para acesso a dados de remuneração.

Nossa incidência também se deu por meio de posicionamentos públicos firmes. Assim, apoiamos o repúdio à proposta do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) que visava limitar o acesso a dados públicos. Assinamos nota contra a “PEC da Blindagem” e subscrevemos a carta de apoio público à sustentabilidade dos bens públicos digitais. Uma vitória significativa da sociedade civil – na qual tivemos participação ativa – foi a pressão que resultou no veto presidencial a dispositivos que ameaçavam a transparência sobre os supersalários. Além disso, em conjunto com outras entidades, produzimos orientações técnicas para jornalistas e pesquisadores sobre como cobrir e questionar o “sigilo de 100 anos”, qualificando o debate público sobre o tema.

No contexto climático, aproveitamos a COP30 para cobrar abertura dos governos, ressaltando o quanto a integridade corrobora para a transparência, a accountability, a participação social e a inovação. Na preparação para a Cúpula, assinamos uma carta exigindo mais transparência e o fim do conflito de interesses nas negociações climáticas. Também articulamos, junto a outros parceiros do Diários do Clima, a concretização da Casa do Jornalismo Socioambiental, uma iniciativa inédita que englobou mais de 20 organizações e que possibilitou qualificar e diversificar a cobertura da COP30 pelos veículos de mídia brasileiros. Ministramos três oficinas práticas na semana pré-evento, focadas na utilização de dados abertos e no monitoramento e na investigação de questões ambientais na Amazônia – e que reforçaram a nossa atuação no letramento e no ativismo digital. Percebe-se que a atuação em rede foi, mais do que nunca, potência. 

Ainda estivemos presentes na Zona Azul e na Zona Verde da COP30, em eventos oficiais da ONU e do governo brasileiro. No painel “Governo aberto: integridade, transparência e participação social para o fortalecimento das políticas climáticas”, promovido pela Controladoria-Geral da União (CGU) no Pavilhão Brasil (Zona Verde), representamos a sociedade civil no debate, que teve participação de três ministros do governo federal. 

Livia Sobota (secretária de Transparência e Acesso à Informação da CGU), Guilherme Boulos (ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República), Esther Dweck (ministra de Gestão e Inovação em Serviços Públicos), Vinícius de Carvalho (ministro da CGU) e Haydée Svab (diretora-executiva da Open Knowledge Brasil) em painel da CGU durante a COP30. Ao fundo, Stephanie Muchai (OGP). Crédito: Henfil/CGU

Em 2025, nosso trabalho em rede também se fortaleceu. OKBR aderiu à Rede Brasileira de Reprodutibilidade e foi selecionada para integrar o novo Comitê Gestor da Infraestrutura Nacional de Dados Abertos (CGINDA). Ainda no cenário nacional, fomos eleitos para o Conselho Diretivo da Rede Nacional de Transparência e Acesso à Informação (RedeLAI). Internamente, apoiamos processos estruturantes de coalizões importantes, contribuindo, por meio da plataforma Cominutas, para a elaboração dos estatutos do Fórum de Direito de Acesso à Informação Pública e da Rede Brasileira de Governo Aberto.

No cenário global de Governo Aberto, representamos a sociedade civil brasileira e marcamos presença no OGP Global Summit, realizado na Espanha, onde levamos nossos aprendizados, trocamos experiências e vimos o Brasil assumir a copresidência da parceria. Na sequência, a partir do OGP Camp, contribuímos para a reformulação do Action Framework, que orientará novas formas de governos que aderirem à Parceria pelo Governo Aberto.

 

Produção de conhecimento e parcerias estratégicas

A produção de evidências e de conhecimento técnico foi o terceiro pilar de nossa atuação em 2025. Lançamos pesquisas que pautaram o debate público e estabelecemos parcerias que levaram a cultura de dados abertos para dentro da administração pública e da academia.

No campo da educação, um dos trabalhos de maior repercussão foi o relatório sobre os Microdados Educacionais do INEP, desenvolvido em parceria com a Fundação Lemann. O estudo demonstrou tecnicamente que não há justificativa para a ocultação de informações essenciais ao monitoramento da educação brasileira, desconstruindo argumentos genéricos sobre privacidade que servem apenas à opacidade.

Lançamento da pesquisa “Ela paga a conta do clima” durante a COP30, com a presença da Ministra das Mulheres Márcia Lopes. Crédito: OKBR/Yuri Vasquez

Na agenda ambiental, participamos da pesquisa “Ela paga a conta do clima: Como as famílias chefiadas por mulheres arcam com os custos ocultos da crise”, que contou com a presença da Ministra das Mulheres Márcia Lopes no lançamento durante a COP30. Em parceria com a Hivos, WRI, Rede Jandyras e outras cinco entidades, este estudo inovou ao propor uma metodologia para avaliar o impacto climático no orçamento doméstico, conectando a pauta de transparência à de justiça ambiental. 

Em termos de prestação de serviços e cooperação técnica, firmamos parcerias estratégicas com governos locais. Trabalhamos junto à Prefeitura de Curvelo/MG e ao Governo do Distrito Federal (GDF) na capacitação de servidores, no auxílio à organização e disponibilização de bases de dados e na construção participativa de marcos normativos. Apoiamos a regulamentação local de governo digital, a adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) do município mineiro e a revisão de políticas de dados abertos do DF, deixando um legado institucional nesses territórios.

A metodologia do Índice de Dados Abertos (ODI) continuou a evoluir. Em parceria com o Insper e com o apoio de estudantes de Direito, atualizamos a dimensão “Meio Ambiente” do ODI Cidades para as capitais do Sudeste, gerando dados cruciais para a gestão ambiental urbana. Além disso, iniciamos um trabalho conjunto com a Fundação Getulio Vargas (FGV) e a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) para adaptar a metodologia do ODI Cidades ao nível estadual, criando as bases para o futuro ODI Estados.

Encerramos este ano desafiador com a certeza de que a Open Knowledge Brasil está mais conectada e madura. Agradeço a cada pessoa que é ou foi da Equipe Executiva, do Conselho de Governança, da rede de voluntariado e aos parceiros que tornaram possível cada uma dessas conquistas.

 

O que esperar de 2026?

2026 é um ano eleitoral e, certamente, a popularização da IA generativa é um fator de atenção. Neste contexto, as principais preocupações giram em torno da viralização de deepfakes (tanto difamatórias em eleições quanto de violência de gênero), da desinformação em massa e da necessidade do arcabouço normativo responder a essa realidade. Aqui me refiro às resoluções do TSE, mas não só. Outros poderes, instâncias e naturezas de organizações precisam debater o desenvolvimento e o uso de IA. 

Para as organizações da sociedade civil, este é o momento oportuno de amadurecer esse debate – de forma coletiva, desenvolver suas políticas e protocolos, mergulhar com cautela em experiências e estudos, e também exigir boas práticas de transparência do poder público.

Este também será um ano marcado pela implementação e desejável avanço de marcos legais importantes. Destacam-se o avanço do PL de mercados digitais (4675/2025) e atuação mais firme do CADE contra abusos de poder; a vigência do ECA Digital (Lei 15.211/2025) a partir deste mês de março, exigindo verificação etária e maior proteção a menores; e o novo regime de responsabilidade do Marco Civil da Internet (Lei 12965/2014) definido pelo STF – ambos ainda carecendo de detalhamento mais profundo sobre sua implementação. No Brasil, a tramitação do PL 2338/2023 e a criação do Sistema Nacional para Desenvolvimento, Regulação e Governança de Inteligência Artificial (SIA) coordenado pela Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) precisam ser seguidos de perto pela sociedade. No âmbito internacional, os EUA seguem majoritariamente na defesa da desregulamentação e no favorecimento da pressão econômica de grandes players, ao passo que, na Europa, o EU IA Act começa a aplicar regras e fiscalização a partir de agosto. Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia publicou o primeiro rascunho do Código de Práticas sobre rotulagem de conteúdo gerado por IA.

Num contexto em que o planeta se exaure, o foco econômico precisa se voltar à  infraestrutura física que sustenta a tecnologia. O Brasil precisa discutir a industrialização de minerais críticos (terras raras) para evitar o mero extrativismo predatório, visando se posicionar na geopolítica global da transição energética e tecnológica. Em 2025, o governo brasileiro apostou muito nas regulamentações tributárias, inclusive criando o Redata (Medida Provisória nº 1.318/2025), que prevê isenções fiscais válidas a partir de janeiro deste ano – e que, embora indique buscar soberania digital, expõe gargalos na infraestrutura elétrica e hídrica e exige debates sobre sustentabilidade (não previstos). Para acompanhar mais de perto essa pauta, em 2026, a OKBR passa a integrar a nova Câmara do CGI.br sobre tecnologias emergentes, soberania e inovação.

Neste ano, seguiremos firmes na missão de abrir o conhecimento para avançar na fronteira da pesquisa, combater a desinformação, fomentar a abertura de dados e códigos, e promover o controle social e a transparência pública.


Haydée Svab
Diretora-executiva da Open Knowledge Brasil